HOMO FUTBOLISTICUS      

EXTRAÍDO DE EBF.COM.BR , POR ÁLVARO DE MELO FILHO

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HOMO  FUTBOLISTICUS: signo da sociedade desportivizada

 

 

                                                                         Álvaro  Melo  Filho (*)

 El fútbol  existe desde hace más de 2.000  años

               y seguirá existindo  dentro de 2.000  más, puesto

              que es parte del  instinto humano  y el  balón  es

              redondo como la tierra.

                                              Joseph S. Blatter                                                              

     “O futebol e a música são os dois mais vigorosos fatores capazes de vencer todos os obstáculos lingüísticos e universais e de levantar os povos sem distinção de raça ou de nacionalidade ”, na percuciente observação de Jules Rimet. Esta assertiva pode ser compreendida como a síntese fundamentadora da SoccerAge , onde esse “world’s game ” (jogo universal), “mais universal que a democracia, a Internet ou a economia de mercado” , transfundiu-se numa “passion partagée ” (paixão compartilhada) e às vezes obcecada. Eduardo Galeano interrogou-se: “Em que é que o futebol se parece com Deus ? ”. E ele mesmo respondeu: “Na devoção que desperta em milhares de crentes e na desconfiança de muitos intelectuais ”. É precisamente este apego desmedido ao futebol gerador desta paixão mundializada que fascina e une povos, pois, “nada más pueda unir tanto a la gente como hace el fútbo l” (Kofi Annan – Secretário Geral da ONU). Categoriza-se desse modo o futebol como um “fato social total ” (M. Mauss) na sociedade desportivizada, sobretudo em decorrência da sua mediatização, profissionalização e mercantilização.

     Como “idioma global” o futebol comporta diversificadas nominações sendo chamado football na Inglaterra, soccer nos Estados Unidos, fussball na Alemanha, voetbal na Holanda, calcio na Itália, fútbol na língua espanhola, shukyu no Japão e tsu-chu na China, a par de polissêmicos significados permitindo uma infinidade de olhares e reflexões, quer dizer, diferentes cores e sabores que assume nas searas histórica, sociológica, antropológica, econômica, política, pedagógica, jurídica, etc. Com isso atesta-se que não se trata de um mero jogo, até porque, para uns é o resíduo mitológico dos combates da Antiguidade, enquanto para outros “el fútbol reemplaza en el mundo moderno las rudas competencias de los caballeros medievales ”. Com outra ótica Bertold Brecht asseverava que o futebol é “a mais fecunda forma de arte do século XX ”.  Só que a arte é um fim em si mesma, enquanto o futebol tem como finalidade a vitória, sempre incerta, sendo esta a “raison d’être ” do sucesso do jogo que arrasta multidões. Além disso, o futebol é também um fenômeno verdadeiramente planetarizado por não ter “veto” de nenhum sistema político nem sofrer “proibição” de qualquer religião, condições necessárias e removedoras de todos os obstáculos à sua efetiva globalização.

    O espetáculo propiciado pelo futebol é parte de uma articulada indústria do entretenimento que não polui, emprega milhões de pessoas e movimenta bilhões de dólares, sendo para uns a “frivolidade mais séria do mundo ” (Bomberger), enquanto que para outros “o futebol não é questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso ” (Bill Shankly). Por isso mesmo o futebol, no plano da individualidade dos atletas e treinadores, transfunde-se num eficaz instrumento de inclusão social e de favorecimento de ascensão social, e, na perspectiva coletiva dos espectadores e telespectadores, enseja uma verdadeira catarse social quando projeta nos times e nos atores futebolísticos maximizados sentimentos de prazer pela vitória ou de decepção pela derrota, de amor aos seus ídolos ou de ódio aos adversários. Ademais, o futebol faz emergir, naturalmente, um sentimento de representatividade espontâneo e generalizado de que os times jogam por nós e conosco, e nós com eles, através de representações visíveis e expressas no apoio incondicional, nas pinturas faciais, nas roupas, nos hinos, nas bandeiras, nas faixas motivadoras, nos silêncios, nos risos, nos gritos e nas lágrimas que consolidam sentimentos de pertença. E mais, para Boff o futebol “como realidade seminal, mobiliza todos os chacras, desde aquele dos instintos mais primários até aquele do êxtase ”. Em suma, o futebol é um espaço de vibração e de comunhão onde as pessoas compartilham festejos ou frustrações.

      De fato, o futebol ao acolher dimensões individuais e coletivas integrou-se à cotidianidade e se irradiou por todos os níveis da pirâmide social, sobressaindo-se por sua capacidade de atenuar diferenças, “implodir” preconceitos e democratizar oportunidades, a par de transmitir e infundir na sociedade sua mensagem de fair-play, tolerância e universalismo.

     A magia do futebol tem dentre seus sustentáculos a força e riqueza integrativas que permitem harmonizar capacidade coletiva com talento individual, vale dizer, que concilia o mérito individual (do atleta) com a solidariedade coletiva (da equipe). É preciso destacar que partidas de futebol funcionam como uma parábola da vida ao reunir e consagrar valores expressivos da sociedade hodierna: competição, performance, eficácia, sucesso e crença em identidades coletivas, sem tolher “la improvisación, lo inesperado, la falta de lógica, la locura, el gênio ” que asseguram a incerteza dos resultados. Aliás, a história do futebol está repleta de vitórias injustas e imprevisíveis, sendo essa imprevisibilidade e capacidade de surpreender os resultados que mantêm vivo o fascínio exercido pelo futebol. Vale dizer, ainda que um time de futebol  seja composto por alguns dos melhores jogadores do mundo, será sempre uma equipe, jogando contra outras equipes e sujeita a inúmeros fatores que vão além da perícia técnica: motivação, condições físicas, preparação tática, equilíbrio emocional e espírito de equipe. Em outras palavras, o futebol é um desporto que tende ao imponderável, como nenhum outro jogo, porque jungido ao acaso e à circunstância. E é exatamente esse quadro que dota o futebol de potencial carga dramática, em face do suspense e experiência intensiva de prazer e desprazer, capaz de provocar a “circularidade das emoções” e gerar cumplicidades contagiantes.

      Por outra ótica, o futebol é fonte de motivação para ações aglutinadoras, com reflexos determinantes na ordem sócio-futebolística onde as diferenças de classes desaparecem e os níveis de instrução tornam-se irrelevantes. Talvez por isso há quem afirme que o futebol é o “  « nouvel opium du peuple  » - ou então,  uma « religion de substitution  », ou ainda, que o futebol é uma usina de espetáculo ou o “teatro do mundo”, “con pocos protagonistas y muchos espectadores , e, por isso mesmo, chegar a seu palco é sonho de muitos e um privilégio de poucos. 

     De outra parte, o futebol que envolve, de alguma maneira, mais de 250 milhões de pessoas, constitui-se numa ferramenta eficaz para promover a mistura de culturas raças e credos, tão visível  por ocasião das Copas do Mundo. Certamente é este o único evento capaz de fazer a humanidade celebrar a mesma festa. Com efeito, “the Football World Cup have become the most known, watched, romanticised, revered, commercialised, mediatised, nationalistic, passionately followed, and critiqued mega sporting events ”. Registre-se que, no recente Mundial de Futebol da Alemanha,  os jogos  tiveram, em média, 51.000 espectadores por partida e uma taxa de ocupação de 96% da capacidade dos doze (12) estádios alemães utilizados. Demais disso, a audiência de TV acumulada alcançou um total de 45 bilhões de telespectadores/consumidores, ou, uma média de 700 milhões por jogo, nas 41.100 horas de programação das partidas transmitidas para 213 países fazendo da Copa do Mundo de 2006 o maior fenômeno audiovisual da história. Estes dados respaldam a procedente colocação de Desmond Morris que “de todos os acontecimentos da história humana, aquele que atraiu maior audiência não foi um grande momento político nem a celebração especial de um feito extraordinário nas artes ou nas ciências, mas um simples jogo de bola – um desafio de futebol ”. Em suma, o futebol não pode ser analisado “sólo como una actividad, lúdica o agonal, sino como un mega evento global, atravesado por las lógicas productivas de la industria planetária. ” (Tarcyanie).

     O futebol é caso exemplar de “localismo globalizado” (Souza Santos), ou de seu processo inverso, “globalismo localizado” (Stigger). Com a globalização reacendem-se os sentimentos nacionalistas, e, o perigo de pasteurização, traz sempre implícita a necessidade de se colocar a marca do país, via futebol, no processo da globalização. Regra geral amado e, poucas vezes, odiado, não é o futebol indiferente a ninguém, até porque é uma metáfora da sociedade contemporânea, vale dizer, “le football constitue un bon miroir de la société ”, ora refletindo as condições de sucesso na atualidade, ora expressando nos estádios as alegrias, tristezas, sonhos e frustrações de cada um. Nessa linha de raciocínio, para alguns autores, o futebol é encarado como um “drama social”: “un ritual a partir del cual se expresan códigos, valores y actitudes que se relacionan con esferas más amplias de la sociedad ” (Oliven), contendo elementos que reproduzem as estruturas, os sistemas, as instituições sociais, notadamente as desigualdades social, cultural, política e econômica. Enquanto isso, na concepção de outros especialistas, o futebol tornou-se um espaço privilegiado que se abre ao imaginário transfigurando o real e permitindo ao público construir seus mitos e criar seus ídolos futebolísticos projetando neles suas angústias, aspirações, decepções e realizações.

     Marcando o ritmo de adeptos e não adeptos, sem possibilidade de fuga, o futebol ocupa no mundo de hoje um lugar que ultrapassa a racionalidade,  constituindo-se numa emoção industrializada que tem lastro na incerteza e imprevisibilidade dos resultados, o que acaba gerando um envolvimento não raro mais real que a própria realidade. Notadamente nas disputas dos mundiais, o futebol torna-se um espetáculo quase hipnótico onde se digladiam o futebol-arte (tipificado  pela habilidade e criatividade dos atletas) e o futebol-força (marcado pelo vigor físico e disciplina tática), que, para usar a expressão de Chico Buarque, gera a competição entre os donos da bola – a escola sul-americana - e os donos do campo – a escola européia.

      A irrefreável paixão pelo futebol é eterna, ao contrário de outras paixões,  porque fincada em profundos sentimentos de lealdade e de fidelidade que vão desde o clube de bairro ou de cidade às seleções nacionais. Por isso, tem o condão de suprimir fronteiras e possibilitar a simbiose entre a globalização unificadora e as resistências identitárias do mundo de hoje, até porque o futebol - o mais global dos fenômenos - é o único que consegue equilibrar a identidade nacional e a diversidade planetária. Nesse diapasão, é cediço o reconhecimento de que o futebol como único desporto espalhado globalmente tornou-se, por um lado, o maior denominador comum no relacionamento planetário, e, de outro, a grande reserva simbólica das diferenças nacionais, com a vantagem dessas diferenças poderem ser dirimidas sem confrontos ou rupturas, porquanto o futebol conquistou os quatro cantos do mundo sem armas e de forma pacífica. E como averba Galeano, o futebol “em plena era da globalização hegemônica, recorda que o melhor do mundo está na quantidade de mundos que o mundo contém ”.

     Nessa linha de raciocínio, atente-se para o fato de que aos três fatores tradicionais para a constituição de um Estado moderno – um território, uma população e um governo, agrega-se um quarto elemento, oficioso e informal, mas de induvidosa relevância política – uma equipe nacional de futebol. Vale recordar, de outra parte, que buscando publicizar e dar visibilidade à soberania por eles conquistadas, os jovens Estados exsurgidos da desintegração do bloco soviético e os que nasceram do desmembramento da antiga Yugoslávia, primeiramente filiaram-se à FIFA, e, só depois, pleitearam suas cadeiras na ONU. Infere-se, então, que o futebol tornou-se, nos dias de hoje, símbolo identitário das nações, instrumento de política diplomática quando, por exemplo, junta na FIFA a China e Taiwan. Registre-se que, fora do futebol, é impensável realizar uma partida entre Estados Unidos e Irã, disputada no Mundial de 2002 na Coréia. O futebol foi também elemento relevante para reconciliação nacional como se verificou na África do Sul após a abolição do apartheid, do mesmo modo que a reunificação das Alemanhas Oriental e Ocidental, iniciada com a derrubada do muro de Berlim em 1989, só foi  consolidada, de fato, quando da Copa do Mundo de Futebol de 2006 motivou a exteriorização de um sentimento nacionalista único. 

     À evidência, o futebol, por estar enraizado profundamente em todos os países, transfundiu-se num idioma universal, apesar de não ser uma língua, sendo que sua popularidade e “mobilização massiva” decorrem da regras simples, claras, praticamente imutáveis e quase sacrossantas, garantindo liberdade e igualdade efetiva dentro do campo, valendo para todos, em todo o mundo.

       Cabe reiterar, nesse passo, que a planetarização do futebol está na sua simplicidade e vis atractiva que o faz praticado em todos os países, por todas as raças, independentemente de credo, grau de desenvolvimento econômico ou de concepção política.

      Nessa vertente de idéias, sobretudo em face da dimensão universal do futebol, não se afigura descabida nem extravagante uma nova concepção do ser humano da espécie “homo futbolisticus ”, não apenas por ser o único animal capaz de jogar e assistir o futebol. De fato, ser “homo futbolisticus ” não significa que, obrigatoriamente, pratique o futebol, que seja torcedor de um time de futebol, ou que goste ou entenda de futebol. Ou seja, não há aqui qualquer pretensão ou animus excludente, dado que como “homo futbolisticus ” quadram-se todos aqueles impossibilitados de fugir dos noticiários sobre futebol nas mídias escrita ou eletrônica, ou ainda, todos aqueles compelidos a testemunhar as discussões futebolísticas em casa, na rua, na escola, no trabalho, no elevador ou no ônibus, etc. Com efeito, o futebol é parte inarredável da cotidianidade, mesmo daqueles que lhe têm aversão ou indiferença, porque se sentem relegados ou marginalizados da sociedade “futebolizada”, justamente por não desfrutar do que  todo mundo desfruta, por não vibrar com o que todo mundo vibra, por não conversar o que todo mundo conversa e por não vivenciar o que todo mundo vivência.

      Aliás, o homo futbolisticus , como projeção dos novos tempos, revela suas dimensões belas e exaltadas, sem esconder suas fraquezas e defeitos, o que não impede que alguns futebolistas profissionais de elite sejam estilizados e “adorados” como verdadeiros “deuses”, enquanto os estádios transfundem-se, de certo modo, em templos, catedrais e mesquitas repletas de torcedores. Ademais, como resultado da onipresença do futebol e de seus valores solidários e democráticos, o homo futbolisticus passou a ganhar generosos espaços na literatura, música, pintura e escultura.

     Sem pretender calibrar o sentido e finalidade, ao longo da história, dos modelos do homo sapiens, do homo faber e do homo ludens , chega-se, na era da “civilisation du foooball ”, à especificidade do homo futbolisticus como síntese perfeita de um conjunto de objetivos e missões do mundo do futebol e como motor da convergência de pessoas em derredor de uma bola de futebol, permitindo um salto novo no processo evolucionário e de rearranjo da humanidade.

      Dessume-se, então, que o homo futbolisticus é parte integrante, indissociada e vital deste fenômeno coletivo dotado de natural ingrediente formador, espírito  integrador e sentimento humanitário - como expressão cultural, como linguagem, como produtor de identidade, como força unificadora da sociedade e como transmissor da mensagem de tolerância e universalismo.

(*)   Advogado. Diretor da Faculdade de Direito da UFC. Professor com Mestrado e Livre-Docência em Direito Desportivo. Membro da FIFA, da International Sport  Law Association, do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, da Comissão de Estudos Jurídicos Esportivos do Ministério de Esporte e da Comissão de Direito Desportivo do Conselho Federal da OAB.  Consultor da ONU na área de Direito Desportivo. Autor de 40 livros, dos quais 23 na área do Direito Desportivo.