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Segunda-feira, 24 de outubro de 2005 , pg D12
Por que os americanos não gostam da Copa do Mundo
Durante a Copa do Mundo de 1994 diversos jornalistas brasileiros, principalmente os mais experientes, reclamaram comigo o fato de o evento ser realizado nos Estados Unidos. Argumentavam que um país que desprezava o futebol não merecia sediar o maior campeonato do esporte.
Outros estranharam o fato de os estádios estarem lotados, mas as ruas vazias. "Não há clima de Copa", me disse mais de um comentarista. Na televisão americana, a temporada de beisebol ganhava bem mais destaque, por exemplo, sem falar da prisão do jogador de futebol americano OJ Simpson, suspeito de ter assassinado sua ex-mulher.
Era, de fato, esquisito. Boa parte do mundo só queria saber da Copa, mas nos EUA, país-sede, reinava a indiferença. Era como se os jogos passassem na Lua.
Havia, na época, por parte da Fifa, e de outros, a esperança de que a realização do grande evento boleiro do mundo no país fizesse com que o futebol pegasse no tranco nos EUA.
Houve progressos inegáveis de lá para cá, mas a verdade é que a imensa maioria dos torcedores americanos se dedica ainda ao seu "football" (jogado, basicamente, com as mãos), ao beisebol, ao basquete, ao hóquei sobre o gelo, ao Nascar, e até mesmo ao golfe, mais ou menos nesta ordem, e despreza solenemente o esporte mais popular do mundo.
Pior é que muita gente joga futebol na escola - são milhões e milhões de alunos. E, como se não bastasse, a seleção americana vem fazendo bonito. Na Copa de 2002 ficou a um gol de passar para as quartas de final, campanha superior à da França e da Argentina, por exemplo. O time atual "carimbou o passaporte" antecipadamente para a Alemanha, em primeiro lugar na sua chave (fato inédito, creio) e se encontra em sétimo lugar, neste momento, no ranking da Fifa, à frente de Itália, da Inglaterra e do Portugal de Felipão.
Pouquíssimos americanos sabem disso. O interesse pela Copa da Alemanha nos Estados Unidos é quase nulo.
Mas acho que, finalmente, entendi por quê. A explicação surgiu durante uma animada discussão, feita por meu e-mail, com diversos colegas, editores de diferentes edições da revista National Geographic ao redor do planeta, e estimulada inicialmente por uma indagação feita pela matriz americana da publicação sobre a Copa da Alemanha. Antes de mais nada, devo esclarecer que os editores da National Geographic, mesmo os de fora dos Estados Unidos, não são, na sua maioria, fanáticos torcedores - não há nenhum hooligã no grupo. O perfil típico se aproxima mais do que os garotos chamam de "inteleca" ou "nerd" ou cientista mesmo. Muitos prefaciaram seus comentários sobre a Copa com frases do tipo, "não entendo nada de futebol". Mas todos, ao falar dos times e ídolos dos seus países, destacaram a experiência da nacionalidade. Relataram festas homéricas na rua (Grécia), intermináveis discussões sobre a psicologia nacional (Itália), orgulhos pátrios e outros temas afins.
Foi quando me caiu a ficha. Os americanos não se ligam na Copa, independentemente do sucesso da sua seleção, porque o futebol sempre foi visto, nos Estados Unidos, como um jogo alienígena. Desde as primeiras décadas do século 20, quando o beisebol se afirmou como "o passatempo nacional", o futebol era tido como um jogo ou de estrangeiros ou, na melhor de hipóteses, de imigrantes.
Ora, a popularidade da Copa no Mundo se deve sobretudo ao nacionalismo. Permite a cada país reafirmar seus mitos. Os brasileiros têm a chance de provar sua criatividade e capacidade de improvisação. Os alemães ostentam seu espírito de luta e determinação. Os argentinos, sua tarimba. Os franceses, seu refinamento e erudição (dê uma lida no parnasiano jornal esportivo L'Équipe, se você duvida). Mas o futebol, para os americanos, ainda hoje continua sendo apenas o jogo do resto do mundo. Não lhes diz nada. É estrangeiro. Não há valores nacionais associado a ele. Assim, fica mais difícil torcer.
Tanto é verdade que há uma campanha para mudar isso nos Estados Unidos, patrocinado pela Nike. (É o país do marketing, afinal.) Encontrei-o na internet (www.ussoccer.com). Seu lema é o mesmo da primeira bandeira dos Marines durante a "revolução americana", "Don't tread on me", que pode ser traduzido como "Não me amole" e traz, como logotipo, uma cobra (que lembra a da F.E.B, um pouco). A campanha ostenta manifestos, até, e slogans como, "Há menos de 20 anos éramos humilhados por ilhas minúsculas; hoje estamos entre os dez".
Torço para que a campanha dê certo. O nacionalismo boleiro, afinal, é mais divertido que o guerreiro.
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