os heróis da bola

ASPECTOS SIMBÓLICOS E MÍTICOS  

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Os heróis da bola - extraído
de :http://www.cidadedofutebol.com.br/site/vip/materias/vermaterias.aspx?idm=832

aspectos simbólicos e míticos do futebol

por Gabriel de Almeida  

Introdução
O esporte é definitivamente um dos maiores fenômenos culturais e sociais de massa observados
ao longo do século 20. Dentro deste movimento o futebol, apenas um dos ramos do fenômeno
esportivo, desenvolveu-se a ponto de rivalizar, sozinho, com todo o movimento Olímpico, uma
vez que a Copa do Mundo de Futebol, em termos de audiência, relevância social e presença na
vida cotidiana, é tão proeminente quanto os Jogos Olímpicos, onde se apresentam centenas de
outras modalidades, além do futebol.

A Fifa, Fédération International de Football Association, órgão mundial da modalidade, agrega
mais países que a própria ONU, isto é, o futebol possui um apelo social, um potencial
universalizador, que nem mesmo os órgãos políticos competentes possuem.

Refletindo a respeito destes fatos, este trabalho procura discutir que aspectos do jogo, quais
elementos presentes em sua essência que mobilizam tanto o ser humano mundo afora. O que
levou o futebol, dentro da dinâmica na qual o homem se constrói e modifica sua realidade, a se
massificar em meio à população mundial de modo tão amplo? Qual o sentido e o significado da
sua presença junto aos homens? Que tipo de influencia o jogador de futebol - seu ator principal -
exerce sobre a vida humana?

Tendo estas questões como ponto de partida, procura-se neste trabalho explicitar os aspectos
simbólicos e míticos presentes na essência do futebol, através da análise da literatura acerca dos
assuntos que envolvem o tema. Refletir e discorrer sobre elementos de sua historicidade, de sua
origem e sua natureza que, em relação aos modos com os quais o homem se relaciona consigo,
com os outros e com seu grupo, podem fazer parte da resposta a estas questões.

O homem se constrói em contato com o mundo. De acordo com Jung, 1999: "O mundo se origina
quando o homem o descobre". Seu contato consigo se inicia no contato com o outro e com o
grupo. Neste processo ele é capaz de atuar no coletivo, modificando e sendo modificado por ele.
No entanto, esta dinâmica é desenvolvida por "intermediários", através dos quais o homem é
capaz de percorrer o caminho em direção a si mesmo e à sua sociedade, sendo o esporte e
especialmente o futebol um veículo fabuloso para que isto aconteça.

O futebol é um fenômeno cultural, com sua origem na história e sua função na sociedade. No
entanto, sua presença na vida humana não se limita a esta dimensão, pois que sua natureza
representa e re-significa expressões míticas, manifesta arquétipos por onde todo o conteúdo
simbólico inconsciente encontra um caminho a ser percorrido em direção ao consciente, à vida
presente.

E é na expressão deste fenômeno social, cultural e humano em terras brasileiras que este
trabalho focará sua atenção. Refletindo em torno de como nosso país vive este fenômeno, quais
são seus elementos específicos, e como o mito do herói, ponto central do ensaio, é revivido e
representado. Que peculiaridades podemos encontrar na relação simbólica, mítica e arquetípica
que o Brasil estabeleceu com o futebol, em especial em torno de sua estrela maior, o jogador de
futebol brasileiro.

1. O homem e seu mundo

1.1. Homem em grupo

Na década de 20 do século passado, duas crianças foram encontradas na floresta tropical indiana.
Uma com dois e outra com quatro anos, ambas não possuíam em absoluto qualquer traço no seu
comportamento que possa ser caracterizada como próprio da espécie humana, na forma como
ela era entendida na época e nos dias de hoje.

 

Ao invés de andar com a postura ereta, engatinhavam; comiam carne crua; ao contrário da
maioria dos homens, possuíam um olfato extremamente aguçado; no escuro seus olhos tinham
um brilho peculiar, semelhante ao dos animais. Só eram capazes de emitir gritos, e por fim não
sobreviveram à tentativa de reintegrá-las à sociedade.

 

Este é apenas um exemplo, descrito por Della Torre, 1986, dentre diversos outros, de como a
relação entre um ser humano e o grupo é importante no processo de constituição das
características entendidas como humanas.

 

As tais crianças encontradas não deixaram de ser da espécie Homo Sapiens, porém, em função
da ausência de contato com seres de sua própria espécie, desenvolveram características
específicas da matilha de lobos da Índia que, por conta destas curiosidades da vida, as acolheu.

 

Isso demonstra não só a necessidade que temos do outro, do grupo, no desenvolvimento de
nossa condição humana, na maneira como ela é entendida nos dias de hoje, como também nos
traz a dimensão de quão plástica é a capacidade do homem de se adaptar e de construir-se de
acordo com aquilo que lhe é dado ou transmitido, característica esta que permitiu ao homem o
desenvolvimento de uma variedade infinita de formas e meios de vida dentro de uma mesma
espécie, mesmo sendo essencialmente idêntica.

 

O ser humano, diferentemente da grande maioria dos mamíferos, até mesmo de seus parentes
mais próximos no reino animal, os primatas superiores, família da qual ele faz parte, requer um
extremo cuidado nos seus primeiros anos de vida, cuidado este fornecido pelo outro, pelo grupo,
pela família.

 

Para que sobreviva, mesmo após adquirir um certo grau de autonomia, é importante que ele se
mantenha no grupo, pois que a soma de forças garante sua subsistência e sobrevivência.

 

Porém, ao atentarmos para casos como o citado acima podemos entender que o agrupamento
humano, ou a sociedade, garantem não somente a sobrevivência da espécie, nos protegendo,
nos acolhendo e facilitando nossa subsistência, como também é fundamental no
desenvolvimento de nossa própria condição enquanto seres humanos.

 

Esta afirmação transcende a lógica de que o agrupamento é apenas a conseqüência natural de
uma necessidade biológica do ser humano, uma vez que, longe do contato com seus iguais
desde o início de sua vida, mesmo que consiga sobreviver sem os cuidados do grupo ao qual faz
parte, um homem deixa de sê-lo, ou melhor, não se desenvolve como tal.

 

É através deste contato com os seres de sua espécie que ele adquire os traços que o
caracterizam como um ser humano. E é nesta relação que lhe é possível desenvolver uma
consciência de si, traço fundamental da sua condição. É no grupo que ele constrói a sua
individualidade, enquanto homem, enquanto ser humano.

 

Por sua vez o grupo é também fruto da ação individual. A sociedade nasce do indivíduo, de modo
que esta relação não se fundamenta na mera causalidade sociedade-homem, mas sim na
natureza dialética estabelecida entre ambas as partes - o homem e a sociedade. Um depende do
outro. O homem depende da sociedade para ser um indivíduo porque ele desenvolve sua forma
de ser através dela, da mesma maneira que qualquer sociedade se constrói no e pelo indivíduo.

 

Esta natureza dialética é bem desenvolvida por Mead, apud Bazilli, 1998: "qualquer tratamento
psicológico e filosófico da natureza humana implica a suposição de que o indivíduo humano
pertence a uma comunidade social organizada e obtém sua natureza de suas interações e de
relações sociais com esta comunidade como um todo e com os membros individuais dela". Ao
mesmo tempo em que afirma que "a sociedade humana tal como conhecemos não poderia
existir sem mentes e selfs (totalidade do ser em seucaráter único e singular), posto que quase
todos seus traços mais característicos pressupõem a posse de mentes e selfs por seus membros
individuais".

 

1.2. Homem e vínculo

 

É partindo deste ponto de vista que se entende o homem como produto e produtor de sua
sociedade, se humanizando e se construindo a partir dos subsídios fornecidos pela sociedade que
o envolve, podendo por sua vez se colocar como um indivíduo perante tal grupo, contribuindo
assim para o seu desenvolvimento coletivo.

 

Com relação a esta dinâmica, Pichón (1988), afirma: "O ator do processo realimenta-se com a
experiência, modificando-se e modificando o mundo".

Um dos mecanismos mais importantes desta interação do indivíduo com a sociedade é a
comunicação, vista por Pichón (1988) como uma das necessidades mais profundas e primitivas
do ser humano, fazendo com que desta forma o homem possa compartilhar e se relacionar com
o outro, permitindo assim que possa se construir e ao mundo, em uma interação dialética que
caracteriza e distingue o homem dos outros seres habitantes da terra.

A sociedade fornece referências de conduta ao homem, através de diversos meios, fazendo com
que ele desenvolva sua subjetividade, sua personalidade, sua individualidade. É no contato com
o grupo que o homem encontra meios de crescer enquanto indivíduo, pertencente a um grupo e
ao mesmo tempo dotado de particularidades que diferenciam-no dos outros membros da mesma
sociedade.

A teoria do vínculo trata justamente desta integração do homem com a sociedade, partindo do
pressuposto de que através das vinculações estabelecidas pela pessoa, com os contatos
estabelecidos, tanto internamente quanto externamente, que se dá o desenvolvimento da
personalidade. Desenvolvida por Pichón, a teoria do vínculo entende o indivíduo como o resultado
de "um interjogo estabelecido entre o sujeito e os objetos internos e externos, em uma
predominante relação de interação dialética, a qual se expressa através de certas condutas"
(Taragano, in Pichón, 1988).

Concebendo o homem em três dimensões, o corpo, a mente e o mundo exterior, que interagem
entre si dialeticamente, a teoria do vínculo entende que é através das estruturas vinculares, tanto
externas como internas, que se dá à construção da personalidade, na medida em que
determinam as características da relação do sujeito com seus objetos.

Conceitualmente, o vínculo é entendido como "a maneira particular pela qual cada individuo se
relaciona com outro ou outros, criando uma estrutura particular a cada caso e a cada momento"
(PICHON, 1988).

Desta forma, o homem se constitui de acordo com o movimento existente entre as três
dimensões, de modo que o vínculo se mostra como uma estrutura dinâmica "que funciona
acionada por motivações psicológicas, resultando daí uma determinada conduta, que tende a se
refletir tanto na relação externa quanto interna com o objeto".(Taragano, in Pichón 1988).

A relação existente entre as dimensões interna e externa do sujeito na construção de sua
personalidade é de natureza dialética, ou seja, se contradizem ao mesmo tempo em que se
complementam.

Segundo Taragano, in Pichón 1988: "os vínculos internos e externos se integram em um
processo que configura uma permanente espiral dialética. Produz-se uma passagem constante
daquilo que esta dentro para fora, e do que está fora para dentro". É através do constante
movimento entre o mundo interno e externo, veiculados pelos vínculos, que se dá o
desenvolvimento da personalidade.

Da mesma forma que o movimento existente entre os vínculos constrói a personalidade, o
comportamento e o aprendizado são também produtos desta dinâmica. De acordo com
Taragano, in Pichón, 1988: "é o vínculo interno que condiciona muitos dos aspectos externos e
visíveis da conduta do sujeito", ao mesmo tempo em que "o processo de aprendizagem da
realidade externa é determinado pelas características resultantes da aprendizagem prévia da
realidade interna, estabelecida entre o sujeito e seus objetos internos."

Tais afirmações dizem respeito a um processo de construção do indivíduo que leva em
consideração as influências exteriores exercidas no sujeito de acordo com características que são
internas, ou seja, tal constituição, já explicitada neste trabalho, depende da comunicação e
também das similitudes desenvolvidas entre aquilo que está fora e dentro do indivíduo, de
acordo com um processo que, segundo Taragano in Pichón (1988), é denominado identificação. 

De acordo com o autor, existem dois mecanismos de identificação, que são estruturadas segundo
o entendimento das dinâmicas vinculares. São eles:

Identificação introjetiva , onde uma imagem exterior é relacionada e trazida para o mundo
interno, isto é, vincula-se um papel exterior à dimensão interior da pessoa. O individuo traz para
si o mundo externo.

Identificação projetiva , quando o sujeito se põe no lugar da imagem, vinculando-se
externamente ao objeto, se colocando no mundo, projetando-se em um personagem externo.

O processo de identificação é primordial para a construção do individuo, uma vez que é de acordo
com as estruturas vinculares e conseqüentemente de identificação que se consolidam suas
condutas e comportamentos.

É através da arquitetura destas relações do sujeito com o meio que a identidade é elaborada, é a
partir destes pressupostos que podemos compreender o dinamismo do equilíbrio existente entre
o agrupamento e sua célula constituinte: o ser humano. Segundo Pichón, 1988: "nas relações
sociais ocorre um intercâmbio permanente entre a assunção e adjudicação de um determinado
papel".

A compreensão da teoria dos papéis sociais é importante na medida em que é através do papel
que o indivíduo se coloca efetivamente perante um grupo social. É pela representação de um
papel que o homem contribui com a sociedade, de modo que seu entendimento é fundamental
para a análise das dinâmicas grupais.

O conceito de papel possui diferentes nuances e dimensões relativas às possíveis perspectivas de
análise, pelo fato de que o relacionamento do individuo com a sociedade ou com o grupo
apresenta diversas variáveis, como vem sendo explicitado ao longo do trabalho.

A noção de papel social parte do princípio de que os agrupamentos, independentemente de sua
natureza ou objetivos, possui uma certa organização, seja ela determinada implicitamente, como
no caso de um grupo de amigos, ou elaborada objetiva e explicitamente, como por exemplo em
uma empresa, de modo que seus integrantes ocupam posições distintas dentro do universo de
uma dado grupo.

Tais posições, segundo Della Torre (1986), implicam em direitos e deveres do indivíduo que se
referem à posição por ele ocupada. O termo aplica-se também a dois níveis de comportamento,
que são relativos à posição ocupada pela pessoa dentro da organização do grupo.

Um nível abarca as expectativas dos outros integrantes do grupo com relação ao desempenho do
individuo em sua posição, sendo que o outro nível se refere ao comportamento adotado pela
pessoa perante o grupo de acordo com o lugar que ocupa dentro do mesmo grupo.

Tal leitura nos permite entender que o papel diz respeito a uma expectativa de conduta, por
parte do grupo, e à conduta em si mesmo, exercida com nuances particulares, com intensidades
e cores singulares, por parte do indivíduo.

A comunicação dentro deste contexto é de fundamental importância, "na medida em que assim
os membros assumem papéis e criam expectativas em função das informações advindas do
grupo" (Goffman, 1989). Ou seja, a comunicação se constitui no mecanismo primordial tanto para
as estruturas vinculares, uma vez que "através do vínculo toda a personalidade do sujeito se
comunica" (Pichón, 1988), como para as dinâmicas relativas ao desempenho de papéis dentro de
um grupo, o que nos leva a entender que a comunicação se apresenta como uma ferramenta de
extrema importância no que diz respeito à uma interação saudável entre o individuo e o grupo e
o grupo consigo próprio, entendido na forma de um organismo auto-regulável.

1.3. Homem e cultura

 

Podemos também entender que tanto as expectativas criadas e projetadas no indivíduo, como a
postura que o sujeito assumirá diante disso, incorporando e vivendo o papel que lhe cabe ou o
negando e se orientando por outros critérios - mostrando da mesma forma a influência do grupo
sobre si - têm como origem toda uma teia de significação simbólica, presente nos diversos
agrupamentos humanos e que são a fonte primeira das formas de organização e sistematização
do tecido social.

 

Assim como é pela significação de cunho simbólico que o homem desenvolve a estrutura de seu
grupo, é também através desta dinâmica que um homem se relacionará com os outros membros
de seu grupo, construindo sua subjetividade e assumindo ou não os papéis que lhe cabem ou
que acaba por conquistar quando na sua interação na sociedade.

 

"A vida humana é orientada pelos significados dos símbolos e, por isso, nada do que é humano
pode existir sem ser simbólico". (Byington, 2000).

 

É esta relação simbiótica entre o indivíduo e a sociedade, entre o homem e o grupo, onde as
relações vinculares se tornam um veículo para o desenvolvimento do homem, onde o seu
relacionamento com o mundo é permeado por códigos e simbolismos e realizado através da
comunicação, em especial da linguagem, que definimos como cultura.

 

Segundo Rubio, 2001: "cultura refere-se a tudo aquilo que caracteriza a existência social de
grupos, povos ou nações, ou seja, é uma dimensão do processo social e não uma decorrência de
leis físicas ou biológicas".

É através desta relação do homem com o outro e com seu grupo, por meio da comunicação em
seus diversos níveis, como a linguagem, o simbolismo e as expressões faciais, entre outros, que
a cultura evolui e ao mesmo tempo permite ao homem se apropriar dela e participar da sua
realimentação e propagação através dos tempos.

O homem dá significado ao grupo, ao mesmo tempo em que o grupo dá significado ao homem.
Seu relacionamento com o real ocorre através da interpretação que dá para a natureza,
interpretação esta condicionada pelas estruturas que sustentam este olhar. Esta estrutura, que
instrumentaliza uma percepção e uma interpretação individual e particular da natureza é
denominada Imaginário.

Presente em todas culturas, exatamente por ser ele a fonte essencial dos processos de
significação, o imaginário, relativo à imagem, à imaginação, é o terreno onde o homem cultiva o
seu real, onde as culturas brotam e florescem, onde o homem é capaz de conceber um real que
lhe é próprio, dentro de parâmetros, de símbolos, de signos, que são comuns e universais.

De acordo com Rubio, 2001: "O imaginário possui um compromisso com o real e não com a
realidade, que esta consiste das coisas, na natureza, e o real é a interpretação, e a
representação que os homens atribuem às coisas e à natureza".

O imaginário não deslegitima o real, como também não desconsidera a natureza e as coisas do
mundo. "... o imaginário não é a negação total do real, mas apóia-se no real de modo a
transformá-lo e deslocá-lo, dando origens a novas relações no aparente real". (Rubio, 2001)

Dessa forma, pode-se dizer que a busca de um significado social de um determinado fenômeno
tende a ser mais profunda quando se preocupa em esclarecer os elementos do imaginário
presentes no dado fenômeno, uma vez que as imagens e os símbolos nele presentes serão o
substrato, a estrutura através da qual o homem fará sua interpretação, e conseqüentemente sua
atuação no mundo.

Esta característica é representada pela diversidade de culturas presentes no mundo,
fundamentadas em significações e interpretações particulares ao indivíduo e ao seu grupo, ao
mesmo tempo em que ilustram o dinamismo com que cada uma das culturas cresce e se
desenvolve. Cada uma vê de uma forma distinta e atua de uma maneira diversa, ainda que
sustentadas pelo mesmo sistema dinâmico.

Mircea Eliade (2002), defende esta idéia ao afirmar que "As imagens, os símbolos e os mitos não
são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma
função: revelar as mais secretas modalidades de ser".

O Imaginário, os símbolos e os mitos são estruturas universais, que em função da sua
plasticidade permitem a diversidade cultural no mundo. São elementos de abertura, trazendo
liberdade às diferentes "modalidades de ser". É, de acordo com Eliade (2002), "... a presença das
Imagens e dos símbolos que conserva as culturas abertas (...). Se as Imagens não fossem ao
mesmo tempo uma 'abertura' para o transcendente, acabaríamos por sufocar qualquer cultura,
por maior e admirável que a supuséssemos".

Este caráter dinâmico do imaginário, onde os sujeitos e as instituições, onde o individual e o
coletivo dialogam através de estruturas simbólicas, de significados que ditam a identidade de
uma sociedade, é o princípio primeiro que permite a um homem assumir um dado papel, agindo
dentro de sua sociedade, que por sua vez age sobre ele, parametrizando suas ações individuais
por meio de, como já foi dito, uma rede de significações presentes na cultura. Segundo
Castoriadis, 1982, citado por Rubio, 2001:"

"O mundo das significações tem de ser pensado, não como uma réplica irreal do real...Temos
que pensá-lo como posição primeira, inaugural, irredutível do social-histórico e do imaginário
social tal como se manifesta cada vez numa sociedade dada; posição que se presentifica e se
figura na e pela instituição das significações...que coloca, para cada sociedade o que é e o que
não é, o que vale e o que não vale, e como é ou não é, vale ou não vale ou pode valer. É ela
que instaura condições e orientações comuns do factível e do representável, e através disso dá
unidade, previamente e por construção, se assim podemos dizer, à multidão indefinida e
essencialmente aberta dos indivíduos, de atos, de objetos, de funções, de instituições no sentido
secundário e corrente do termo que é cada vez, concretamente, uma sociedade.

Desse modo, podemos compreender que o imaginário social, com suas raízes simbólicas e
míticas, seus significados subjacentes e suas representações culturais participam da construção
do indivíduo ao fornecer-lhe um modelo mental, pelo qual ele irá guiar-se e assim se inserir na
sociedade, sendo sua atuação condicionada pela dinâmica que ele estabelece entre as
particularidades de sua personalidade, que lhes são absolutamente únicas, e as representações
de uma cultura, entre os parâmetros existentes em sua sociedade. De acordo com Jung (1964),
os chamados símbolos culturais "constituem-se em elementos importantes da nossa estrutura
mental e forças vitais na edificação da sociedade humana".

O homem vive de maneira singular e particular este movimento entre ele próprio e sua sociedade
e cultura. Age e reage dentro de seu grupo de maneira única. Apesar de indivíduo, isto é, não
divisível, os significados das experiências estão remetidos a um campo simbólico, a um mundo
de significações que é anterior a ele, que o transcende enquanto ser individual, que o transforma
em um ator mítico de peças mitológicas originárias e universais a toda raça humana.

Sua indivisibilidade é expressa pela forma com a qual ele viverá esta história, na maneira como
ele incorporará o imaginário simbólico de sua cultura, e do caráter e da intensidade com a qual
ele representará o seu papel. Identificando-se com certos significados, o homem, ao introjetar os
símbolos e mitos de sua sociedade, e ao projetá-los nesta, será realmente parte única e
indivisível de um movimento total e universal.

Em cada um de seus atos estarão presentes o que é imediato e o que é atemporal, o circunscrito
e o histórico, o factual e o simbólico, o pessoal e o coletivo. Aquilo que ele foi, é e será, só o
podem ser se este movimento fizer parte desta dança.

1.4. Homem e mito

No entanto, de onde surgem estes parâmetros, ditados pelo grupo, pelos quais o homem se
constrói, atua, se comunica, se identifica? De onde surge a estrutura por meio da qual os homens
organizaram seus grupos?

As formas, meios e aspectos presentes em uma dada cultura referem-se à simbologia inerente à
sua história. Mesmo avançando em termos de técnica e complexidades de organização, qualquer
cultura baseia-se em sua história pregressa para tal, ou melhor, é fruto direto de suas
experiências, embora compartilhe com todas as diversas outras elementos em comum. Mesmo
que difiram em posição geográfica, clima, recursos, história, todas as culturas presentes no
mundo possuem símbolos comuns, aspectos na sua conduta e organização que se fundamentam
nas mesmas bases, modos de ser e de existir que provém da mesma fonte. Muda-se a
roupagem, o tempo, até mesmo certos elementos, mas todo grupo humano é significado, dá
significado, reproduz, interpreta, se orienta e se constrói por meio de exemplos de
comportamento comuns, presentes na mitologia de seu povo. Mitologia esta que, como já foi
dito, pode mudar de cor e aspecto, mas que em sua essência convida o homem a viver e dar
significado para aspectos da vida humana que são comuns a todos nós, pois, afinal, somos
todos membros de uma mesma espécie.

O mito, por assim dizer, é a história que dá o exemplo, que permite a construção dos
parâmetros por meios dos quais os homens se desenvolvem. É pelo mito que o homem é capaz
de se entender, se enxergar, se ouvir.

Segundo Campbell, 2001: "Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana".
Os mitos têm a função de nos contar quem somos, de nos colocar em contato conosco, com
nossa história e com nossa natureza.

A vida e a sociedade como a entendemos hoje são re-intepretações mitológicas. As relações
humanas, as relações de poder, a história individual de cada um é permeada pela influência dos
mitos, pois que estas estórias não se constituem apenas em contos extraordinários para o
entretenimento infantil - embora este seja também um propósito extremamente nobre.

O mito pode possuir uma função mística, abrindo a experiência da vida humana para o mistério
da transcendência, como se pode notar pelos diversos mitos presentes em todas - sem exceção -
religiões conhecidas. Também, pode conter uma função cosmológica, transmitindo assim lições
sobre as formas, as dimensões e o modo de funcionamento do universo, da natureza e da vida.

A função pedagógica do mito está contida em seu poder de ensinar ao homem como viver a sua
vida. Através do mito o homem se torna capaz de entender sob quais parâmetros a vida deve ser
conduzida, e quais aspectos não podem ser negligenciados. Os mitos nos ensinam sobre as
diferentes etapas de uma vida humana, os diferentes desafios e as possíveis conquistas que a
vida nos oferece.

Da mesma forma, a função sociológica dos mitos está presente na sua capacidade de dar
suporte e validar determinados valores e ordens sociais. O mito transmite e a valida uma
determinada ética que sustenta a vida coletiva dos homens.

Sob este aspecto, é importante entender que mesmo transmitindo mensagens essenciais,
comuns a todos os povos, cada mito deve ser contextualizado com a cultura de onde ele provém.
De acordo com Campbell, 2001: "O campo simbólico se baseia nas experiências de uma dada
comunidade, num dado tempo e espaço. Os mitos estão intimamente ligados à cultura". Assim
como o desenvolvimento do homem, o mito possui uma dimensão particular, específica, assim
como uma coletiva, comum a todos os povos.

No entanto, os mitos não são meramente histórias "inventadas". Sua dimensão específica se
constitui na tradução que um certo povo dá para elementos universais da vida humana, e seu
aspecto simbólico nos mostra o quão profunda é sua nascente, "pois os símbolos da mitologia
não são fabricados, não podem ser inventados ou permanentemente suprimidos. Esses símbolos
são produções espontâneas da psique e cada um traz dentro de si, intacto, o poder criador da
sua fonte" (Campbell, 1999)

O mito nos coloca em contato com nossa natureza, é um meio de expressão de nossos aspectos
e conteúdos mais profundos, de âmbito coletivo e individual. Segundo Campbell, 2001: "Toda
mitologia tem a ver com a sabedoria da vida, relacionada a uma cultura específica, numa época
específica. Integra o indivíduo na sociedade e a sociedade no campo da natureza. Une o campo
da natureza à minha natureza. É uma força harmonizadora".

O mito é um dos meios de expressão - juntamente com os sonhos e atos falhos - dos arquétipos
presentes no inconsciente, expressão esta sempre simbólica, sendo o veículo de suas forças
primordiais, dos elementos básicos da estrutura psíquica, em suma, meio de manifestação dos
arquétipos gerados por nosso inconsciente, seja ele no nível pessoal ou no coletivo.

A psique se estrutura através dos arquétipos, que habitam o inconsciente coletivo ou psique
objetiva. Tais arquétipos se manifestam no Ego individual através de complexos, onde diversas
experiências particulares de um homem se constelam em torno de um arquétipo. Ou seja, os
complexos são formados por uma "casca", onde se encontram elementos de caráter pessoal,
lembranças e memórias reprimidas, todas orbitando um elemento de caráter coletivo, o
arquétipo, força que manifesta a sabedoria do mundo e da história.

A respeito desta estrutura psíquica, na qual os arquétipos são os "blocos construtores" afirma
JUNG, 2000: "Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições
imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens
preenchidas de conteúdo, mas precipuamente apenas de formas sem conteúdo, representando a
mera possibilidade de um determinado tipo de percepção ou ação".

Desse modo, pode-se entender que os arquétipos são os "moldes" pelos quais a experiência da
vida humana se dará, é a forma com a qual a energia psíquica emergirá. Os conteúdos podem
mudar, em função da diversidade da vida, no entanto, sua forma é pré-concebida, é arquetípica.
Essas imagens arquetípicas, dessa forma, surgem a partir dos arquétipos, sendo no entanto
constituintes diferentes dentro da dinâmica da psique. Sobre isso Jacobi (1991) citado por
Cavalcanti (1996) afirma que "só depois de ter recebido uma forma, manifestada pelo material
psíquico individual, é que ele se torna psíquico e penetra na esfera do consciente".

No entanto, não é somente na experiência psíquica individual que esta estrutura pode ser
encontrada. Vários fenômenos sociais encontrados nos dias de hoje participam da mesma
dinâmica. Contém um aspecto temporal, uma roupagem contemporânea, embora expressem
profundamente mitos e arquétipos atemporais e universais. É possível se notar em diversas
atividades do mundo moderno aspectos mitológicos, arquetípicos, formatados de acordo com os
padrões específicos da época e da sociedade onde ele se manifesta.

E é exatamente sobre um destes fenômenos modernos que focarei este trabalho. Enquanto
manifestação moderna do movimento olímpico, enquanto atividade determinada pelos padrões
de ordem e funcionamento de nossa época, mas que no entanto se constitui em um poderoso
instrumento de vivência e re-significação de mitos e arquétipos de todos os tempos e histórias.
Repleto de significados, dotado de uma profunda simbologia, será sobre a sua dinâmica, seu
impacto na sociedade e em especial seus jogadores que nos preocuparemos neste ensaio.

2. Futebol

2.1. Origens

Onze pessoas de cada lado do campo. Uma bola. Instrumento de trabalho: o corpo. Objetivo:
colocar a bola dentro da meta adversária, além de evitar que a outra equipe faça o mesmo. A
vitória é dada à equipe que colocar mais vezes a bola no gol adversário. Detalhe: os jogadores
devem realizar esta tarefa utilizando somente os pés. A bola deve ser conduzida, passada,
lançada, dominada e desferida ao gol sem a utilização das mãos, vantagem esta desfrutada
apenas pelo goleiro, cuja principal função é impedir que a bola adentre o seu gol.

Esta é a fórmula do maior fenômeno esportivo de nossa época: o futebol, jogo que nasceu na
Inglaterra vitoriana do século 19, ao mesmo tempo em que o barão francês Pierre de Coubertin
elaborava os pilares para o movimento olímpico moderno.

O futebol surgiu da adequação de uma atividade folclórica inglesa, onde durante os carnavais a
população de uma cidade jogava, usando as mãos e os pés, uma bola em direção aos portões
de outra cidade vizinha. Durante o início da revolução industrial, os colleges ingleses adaptaram
esta atividade festiva para um campo, com duas metas - ou goals - e um número determinado
de jogadores de cada lado. Esta adaptação tinha como objetivo educar os espíritos da nobre
burguesia, acreditando que através da prática de tal jogo poderiam-se exercitar valores como
combatividade, espírito de liderança, disciplina, coragem, estratégia, além de força física e
resistência ao esforço.

É curioso notar que ao mesmo tempo as escolas públicas inglesas desenvolviam uma pedagogia
esportiva um pouco diferente. Composto de exercícios físicos similares aos do treinamento
militar, o sistema educacional inglês deixava bem claro que, enquanto procurava desenvolver em
suas escolas particulares os futuros líderes de seu império através de atividades coletivas que
envolviam a agonística, a estratégia e a liderança, por outro lado se preocupava em desenvolver
nas escolas públicas os músculos daqueles que iriam impulsionar com sua força física as
máquinas da revolução industrial, bem como defendê-la e expandi-la, em caso de necessidade.

Esta relação se deu em toda Europa da época, dividindo a atividade física em dois movimentos
distintos: o ginástico, fundamentalmente militar e voltado ao desenvolvimento físico daqueles
que iriam trabalhar nas fábricas; e o esportivo, centrado nas elites e preocupado, da mesma
maneira que os gregos da antiguidade, em desenvolver os espíritos de sua promissora
juventude.

2.2. O Movimento olímpico

Atento a estas características de seu tempo, o já citado barão francês liderou, em meados do
século 19, um movimento político e social que culminou na primeira edição dos chamados Jogos
Olímpicos da era moderna, realizados em Atenas, no ano de 1896. Em consonância com os
valores pregados nos jogos antigos, o movimento olímpico moderno recuperava, validava e re-
significava valores como a competição com igualdade de condições, o fair-play, a confraternização
entre os povos, o recorde.

O Olimpismo apresenta o seu conceito em seu princípio fundamental de número 2, presente na
Carta Olímpica:

 "uma filosofia de vida que exalta e combina em equilíbrio as qualidades do corpo, espírito e
mente, combinando esporte com cultura e educação. O Olimpismo visa criar um estilo de vida
baseado no prazer encontrado no esforço, no valor educacional do bom exemplo e no respeito
aos princípios éticos fundamentais universais".

Desse modo, é importante frisar o quanto o movimento esportivo ressurgiu na história
contemporânea como uma nova forma de expressão das funções míticas, além de se apoiar em
todo o referencial grego, mitológico, para a sua estruturação.

O esporte possui uma função mística, que é entendida pelo seu poder de abrir a existência para
capacidade que o ser humano possui de transcender seu limites físicos, de colocá-lo em contato
com os mistérios inerentes a certos aspectos do corpo e do movimento, através do
deslumbramento, do maravilhamento diante da perfeição do mais alto, mais forte, mais rápido
(Citius, Altuis, Fortius, valores presentes tanto no Olimpismo helênico como no moderno).

Um exemplo deste caráter místico pode ser observado pelo fato de toda edição dos jogos
possuírem uma cerimônia de abertura e de encerramento. Observa-se nos Jogos a abertura de
um tempo simbólico sagrado para a realização do evento. Da mesma forma, o fogo na pira
Olímpica representa o contato do homem com o sagrado, o permanente, o atemporal. O fogo
que não se apaga e que ressurge a cada edição representa também o saber, a capacidade do
homem de controlar os limites, a força, tanto de si próprio como - principalmente - da natureza.

Nos jogos este contato do homem com o sagrado se dá através da atividade física, do
movimento, da competição, sendo este, portanto, o seu caráter cosmológico, a forma com a qual
o homem pode reproduzir sua natureza atemporal inconsciente e universal.

Também, o esporte moderno tem como princípio fundamental a validação, a reprodução e
transmissão de valores e de um código de ética, representando assim sua função social,  de ser
um meio de comunicação de valores universais e de uma ordem social, que envolve a todos e os
toca, por meio de seu caráter mítico, a todos sem restrição, respeitando mesmo assim cada
cultura e cada civilização, enaltecendo as diferenças ao mesmo tempo em que se utiliza de uma
linguagem comum e universal, tanto no sentido da atividade física ser praticada em todos os
cantos e épocas, como no sentido de suprir aspirações de transcendência e de heroísmo
presentes em todos os seres humanos, pelo fato de serem estes arquétipos do inconsciente
coletivo.

Seguindo este raciocínio, o esporte transmite, como no trecho citado da carta, os princípios de
qualidade de vida e saúde que devem nortear cada existência para o seu bem viver, de modo
que o esporte, além de todas as funções já esclarecidas, possui uma função educacional de
valorizar a vida, a saúde, assim como a coragem, a disciplina, não sendo por mero acaso que ela
se encontra presente nos sistemas pedagógicos mundo afora.

Desse modo, entende-se o fenômeno esportivo como uma reprodução mitológica, uma vez que
nele podem ser encontradas as mesmas funções relegadas ao mito em si. Sendo uma
interpretação moderna de princípios universais e atemporais, possuindo a capacidade de tocar
toda a espécie humana, o esporte se apresenta enquanto um mito, e seus ritos, suas
competições, expressam os mesmos aspectos e funções.

2.3. O futebol símbolo

O jogo futebol possui, por ser não somente parte do fenômeno esportivo, como também por ser
o seu maior expoente, as mesmas características míticas e simbólicas observadas no movimento
olímpico.

A começar pelo modo como é jogado, sem o uso das mãos, sem se utilizar daquilo que muitos
antropólogos consideram a característica definitiva que nos permitiu tamanha evolução e nos
diferenciou dos outros mamíferos, a nossa habilidade manual, o futebol nos coloca em contato
com nossas dimensões mais arcaicas e primitivas, pelo fato de se utilizar dos pés, e não das
mãos, para poder ser jogado. Assim como ilustrou Byington, 2000:

"Os pés representam a parte mais instintiva do ser humano, como bem ilustra a figura mitológica
do centauro. Eles representam a metade inferior do corpo, geralmente associada aos processos
inconscientes, a excreção fecal e urinário e os órgãos sexuais - tudo isso contraposto à cabeça e
à boca, representantes da consciência, de quatro órgãos dos sentidos e da ingestão. A proposta
do futebol é revolucionária exatamente por reintroduzir a parte inferior do corpo, tão reprimida
em nossa cultura. No futebol, a coordenação corporal readquire seu heroísmo, seu brilho numa
competição agressiva. No futebol se destacam os pés. Justo a metade inferior do corpo, a mais
precisada de redenção em nossa cultura. Freud denunciou a repressão sexual que é apenas uma
parte da repressão do Arquétipo Matriarcal que representa tudo o que é arcaico, sensual,
instintivo e irracional no ser humano. A habilidade dos pés é a habilidade do mundo arcaico. O
oposto da cabeça, do raciocínio claro, da consciência. O homem ocidental se hipertrofiou
tremendamente em torno apenas da consciência, e da palavra, do arbítrio do Ego, separando-se
perigosamente das raízes arcaicas desse Ego".

Outro aspecto digno de nota diz respeito ao fato do goleiro, mesmo podendo se utilizar das
mãos durante o jogo, faz uso do membro superiores com o objetivo único de destruir, de obstruir
o objetivo adversário. Isto é, mesmo estando presente no jogo, a utilização das mãos e braços
no futebol possuem em sua natureza a mesma função arcaica de defesa primária, de subjugo do
inimigo. No futebol, as mãos e braços, mesmo quando usados por aqueles a quem o uso é
permitido, possuem uma função bem menos nobre e elegante que a que cabe às pernas e pés.

Pode-se considerar este aspecto arcaico e irracional para explicar o sucesso que o jogo adquiriu
ao longo do século 20. Há de se entender, até por fatores físicos e motores, que um jogo jogado
com os pés requer uma habilidade e uma destreza muito maior do que qualquer outro jogado
com as mãos. Da mesma forma, ao se utilizar das pernas o jogador deve movimentar todo o seu
corpo, seu quadril, seus braços, seu tronco, de modo que são os pés que tocam a bola, porém é
necessário que o corpo inteiro se movimente. O jogo de futebol causa um deslumbramento nos
homens, tanto pela dificuldade do domínio da bola com os pés propriamente dito, como pelo seu
caráter simbólico. Enquanto nas outras modalidades jogadas com bola o uso dos pés não é só
proibido, como passível de punição, no futebol ele é a essência, o centro, a sua natureza
primeira.

Mesmo possuindo este caráter, fruto da natureza do seu jogar, o futebol se mostra completo
quando nos deparamos com o fato de que ele obedece a regras e delimitações extremamente
racionais, lógicas e éticas, pois que é uma instituição, é organizada, possui regras que
obedecem, como já foi ilustrado, os princípios helênicos de uma humanidade fraterna, moral e
justa. O jogo possui regras e um árbitro, que representa a autoridade da instituição. Os
jogadores dispõem-se em posições predeterminadas, o time possui uma estratégia. Porém, a
natureza primeira do jogo pertence ao mundo inferior, da sensualidade, do irracional.

Outro aspecto simbólico do futebol, compartilhado com as outras modalidades, é o seu caráter de
competição com igualdade de condições e equilíbrio de forças. As regras são iguais para ambos
os times do confronto e o número de jogadores é o mesmo, a não ser que um dos jogadores,
por desafiar o poder do árbitro que media a partida, ou por se mostrar desleal e violento para
com o seu adversário, acabe por ser expulso do campo, deixando a sua equipe privada de um
jogador. Re-interpretando o confronto bélico, o futebol, através do seu aspecto arcaico, reproduz
a guerra dentro de parâmetros que permitem às equipes mostrarem seu valor de fato, oferece
ao jogador a possibilidade de demonstrar sua destreza, uma vez que não existem desvantagens
na forma de se jogar o jogo que ocultem a habilidade individual ou coletiva em torno de uma
desproporção de poder, como sempre se observou nas disputas bélicas. O equilíbrio permite o
enaltecimento da habilidade no jogo em detrimento da força e da violência.

A vitória é dada àquele que for mais habilidoso, sem ser necessário que alguém morra para isso.
De acordo com Byington, 2000: "Por ser uma atividade social que subordina a agressividade ao
esporte, contrariamente aos torneios patriarcais que subordinavam o esporte à agressividade,
preparando o povo para a guerra, o futebol conseguiu subordinar a agressividade ao esporte
através da transformação da morte do inimigo no símbolo do gol".

Da mesma forma, o futebol é uma modalidade esportiva cujas regras são passíveis de
interpretação, o que significa que a influência do humano, do terreno, do "falível", é fundamental
em sua dinâmica. Grande parte do seu apelo provém desta característica, uma vez que, sendo as
regras interpretáveis, cada um pode opinar, pode colocar-se em relação ao ocorrido. Em
detrimento de uma regra superior, que paira sobre os homens e os controla e os submete, a
regra do futebol convida o homem à reflexão, ao posicionamento, a uma afirmação de si, para si
e para os outros.

O futebol foi uma das únicas modalidades agonísticas, de confrontos, onde duas equipes
disputam a vitória, que não cedeu à intensa urbanização observada no século 20, não diminuindo
seu espaço de jogo. Enquanto a grande maioria das outras modalidades é disputada em
quadras, em terreno construído - piso artificial -, o futebol continua sendo jogado ao ar livre, em
um grande espaço aberto, sobre o chão, sobre o terreno gramado, fazendo com que o jogo
continue passível às interferências do clima e do terreno, garantindo ainda mais o seu aspecto
primitivo, pouco "controlável" e necessariamente dependente dos elementos da natureza. Isso
nos remete ao seu caráter natural, ao quanto o jogo nos harmoniza com nossa natureza, sob os
aspectos da tradição e do romantismo.

O estádio de futebol é outra característica digna de se fazer nota quanto ao seu simbolismo. A
sua construção, com o campo ao meio e os espectadores nas laterais, em torno de onde o jogo
ocorre, transforma o estádio em uma mandala, em um espaço sagrado, onde o espetáculo do
jogo se torna um rito na medida em que não só envolve a participação de todos os presentes:
jogadores, árbitros, técnicos, reservas, como também da torcida, que ativamente participa do
jogo, apoiando seu time ou depreciando o seu adversário. Na verdade, o que torna o jogo um
ritual é precisamente a participação dos espectadores, uma vez que é o processo de identificação
dos torcedores com o que ocorre em campo que o caracteriza como tal, um espetáculo ritualístico,
semelhante aos espetáculos religiosos, uma vez que favorece a ligação, ou a re-ligação, da
consciência individual de cada espectador e da consciência coletiva da massa que assiste ao jogo
às suas raízes mais primitivas, mais arcaicas, permitindo a conexão do homem e seu grupo à
sua consciência coletiva, isto é, "ligar a consciência individual e coletiva às suas raízes, ou seja,
ao Arquétipo Central do Self, organizador do desenvolvimento psicológico da alma humana e
coletiva".(Byington, 2000).

Todo ritual possui esta função, assim como todo ritual necessita de um espaço, sacralizado para
aconteça, e todo ritual necessita de agentes e espectadores, característica esta fundamental, e
para que isto ocorra a mandala representada pelo estádio é de extrema importância, "a mandala
é, pois, um símbolo estruturante da totalidade do indivíduo e da coletividade que através dela,
se relacionam com seu centro psíquico" (Byington, 2000).

Esta identificação é fundamental para que o ritual ocorra, para que o esporte alcance seu objetivo
máximo: o de ser uma atividade de caráter mítico que permita ao homem se desenvolver
enquanto tal, que forneça subsídios mitológicos e que exercite as emoções humanas para que o
homem cresça em direção à sua consciência, para que ele entre em contato com seus conteúdos
inconscientes, sejam eles de cunho individual ou coletivo, e assim avance no seu processo de
individuação. Segundo Campbell, 1999: "A função primária das mitologias e dos ritos sempre foi
a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar".

No entanto, para isso é necessário que o homem se encontre aberto à experiência, para que
aquilo que lhe é mostrado o leve a um aprofundamento de sua consciência, para que a
experiência o toque, sendo o futebol, por suas características simbólicas, o ambiente perfeito
para que esta abertura ocorra, e que o mito possa se expressar. "Não seria demais considerar o
mito a abertura secreta através da qual as inexauríveis energias do cosmos penetram nas
manifestações culturais humanas" (Campbell, 1999). Pois bem, o futebol é uma destas
manifestações.

Esta abertura é a predisposição que o homem possui, mesmo sem ter a consciência disto, de
entrar em contato com seus níveis mais primitivos e profundos, como suas emoções reprimidas,
com seus conteúdos inconscientes. Um exemplo disto é a natureza catártica demonstrada pela
torcida no momento do gol, quando a meta é alcançada e o ápice do jogo é atingido, quando as
emoções, contidas por estratégias, passes, toques de bola, perdem o controle e atingem o seu
extravasamento máximo, tanto por parte do jogador como, principalmente, da torcida, muito
bem resumida na frase do jogador tricampeão do mundo "Dadá" Maravilha: "o gol é o orgasmo
do futebol". Quando o controle das energias e emoções é perdido, o sentido e o valor do jogo
podem ser identificados.

Segundo Byington, 2000:

"Se o Ego espectador se mantivesse absolutamente lúcido, reflexivo e controlado na mera
observação fria do jogo, nunca ocorreria a identificação simbólica espectador-jogador,
fundamental para que a ação dramática e pedagógica aconteça. A grande finalidade do ritual é
exatamente diminuir este poder controlador do consciente para que o Self consciente-
inconsciente passe a comandar todo o processo através dos símbolos".

2.4. O futebol emocional

Considerando estas ponderações a respeito do caráter simbólico do futebol, temos também que
atentar para o fato de que, uma vez que o futebol possui esta capacidade de colocar o homem
em contato consigo mesmo, uma vez que permite, tanto ao jogador quanto ao espectador, uma
vivência de suas características mais arcaicas, representadas pelo uso dos pés, como de sua
imensa capacidade de racionalização, exemplificada pelo seu caráter ético olímpico, baseado em
um contexto sagrado e ritualizado, é inevitável notarmos o serviço que o futebol nos presta
enquanto veículo educador, enquanto meio de exercício de nossas emoções, tanto no seu
controle como na sua elaboração e expressão.

Como instrumento pedagógico o futebol e o esporte em geral já demonstraram sua eficácia em
desenvolver espíritos corajosos, éticos e disciplinados, podendo-se observar isto desde a Grécia
antiga, passando pela Europa vitoriana e culminado na extensa difusão da sua prática no
sistema educacional e como atividade de lazer.

Em primeiro lugar a sua prática, por sua natureza competitiva, faz com que o indivíduo se
desenvolva em função da sua necessidade de se confrontar. Ao se confrontar com seu oposto -
seu adversário - o ser humano deve se afirmar enquanto um ser total, inteiro, presente, pois que
desprovido desta postura ele será derrotado. Para que isto ocorra é fundamental que as emoções
que surgem quando do confronto sejam elaboradas, expressadas, internalizadas e
conscientizadas. Segundo Byington, 2000: "o futebol é um exercício de confrontação de opostos,
durante o qual várias emoções são elaboradas, isto é, soltas, exercidas, conhecidas e
adestradas. Mais eficiente que qualquer universidade, o futebol é uma escola de treinamento
emocional, democrático e ético da alma coletiva com alto potencial pedagógico civilizador".

Por unir as dimensões racionais e irracionais do homem, seus aspectos civilizados e primitivos, a
prática do jogo é um instrumento de desenvolvimento que liga o Ego com seu Self, conecta o
homem consigo mesmo em seu processo de evolução, fazendo com que entre em contato com
sua unidade através do conflito dos opostos. E isto ocorre em uma prática que expressa em sua
natureza a totalidade humana, um jogo de caráter demiúrgico, que se inicia pelos pés, pelo
irracional e primitivo, e atinge sua excelência no controle das emoções, pela razão, em direção à
sabedoria.

No decorrer de um jogo todas as emoções podem ser manifestadas, elaboradas e aprendidas.

De acordo com Byington, 2000:

"O futebol lida com emoções fundamentais, como, por exemplo, a agressividade, a competição,
a inveja, a crueldade, a depressão, o orgulho, a vaidade, a humilhação, a amizade, a covardia, a
rivalidade, o fingimento, a traição, a euforia da vitória ou a depressão da derrota e muitas
outras".

Pode se entender a necessidade de se exercitar o espírito de luta, a coragem, não só pela
natureza do jogo, como também a importância de se desenvolver a coragem e a fé no caminho
de individuação, na trilha a ser percorrida para que o homem entre em contato consigo, para que
ele seja inteiro. A cultura neurotizante na qual vivemos tende a valorizar mais o lado combativo e
até violento do futebol, desse modo reforçando a coragem e o espírito de luta neste sentido,
sem notar, por total incapacidade de permitir o livre expressar de suas emoções e anseios, o
quão válidas são estas posturas diante da busca interior, do processo de conscientização que nos
torna inteiros, plenos, ligados à unidade da vida.

Este exercício de expressão e elaboração de sentimentos, de emoções e de valores da sociedade
através do futebol somente é possível por conta de um elemento. A arquitetura do estádio, a
natureza simbólica do futebol, sua história recente, seus elementos de identificação, vinculação e
simbolização da vida e de seus caminhos, todos estes aspectos não fariam muita diferença se
não fosse um simples e, embora pareça óbvio, fundamental aspecto a ser explorado: o jogador
de futebol. Sem ele, sem a presença humana no jogo, sem que houvesse o desempenho
humano, o futebol não existiria, e, mesmo se de um modo ou de outro existisse, simplesmente
não faria o menor sentido.

3. O jogador de futebol brasileiro      

O título acima possui propositadamente dois sentidos: o de ser um jogador brasileiro de futebol
e o de ser um jogador do futebol brasileiro. Este ensaio tem como principal foco de análise o
jogador de futebol que é brasileiro, e que por isso joga o futebol que, embora sob os mesmo
aspectos essenciais do futebol jogado em todo mundo, desenvolveu em terras brasileiras
características próprias, particulares na sua forma de ser jogado, fato este comprovado não só
pela nítida distinção do modo tupiniquim de se jogar, como também pela supremacia do nosso
futebol em torneios internacionais, pela repercussão que os jogadores nascidos e criados aqui
causam no mundo todo.

Antes de se fazer, como expresso no final do último capítulo, uma análise do jogador, no caso o
jogador brasileiro, dentro do contexto simbólico, mítico e ritualístico do futebol, é importante
atentar para o modo pelo qual a sua prática surgiu em terras brasileiras, como a cultura brasileira
desenvolveu um jeito específico, como é natural em qualquer mitologia, de expressar, de acordo
com sua cultura, seus símbolos e mitos através desta modalidade esportiva.

3.1. O futebol no Brasil

O futebol chegou ao Brasil no final do século 19, juntamente com os ingleses que construíram
grande parte da hoje decadente malha ferroviária do Brasil, especialmente em São Paulo e Rio
de Janeiro, dentre diversos outros serviços de desenvolvimento civilizatório que o império
britânico encabeçou mundo afora neste período. Sua chegada oficial é datada em 1894, mas o
jogo já era praticado pelos operários das tais empresas ferroviárias. No entanto, foi a partir desta
data que sua pratica foi institucionalizada, sendo portanto o seu início oficial na história do
futebol no Brasil.

Apesar dos operários ingleses e os peões brasileiros também praticarem o jogo, as federações,
baseadas no modelo inglês, eram voltadas somente para as camadas mais abastadas dos
centros urbanos, de modo que aos pobres, negros e mulatos não era permitida a participação
nas equipes e nos campeonatos. Apenas aqueles que possuíam tempo livre para a prática do
jogo, e aqueles que eram membros dos clubes reunidos nestas federações possuíam o privilégio
de participar dos campeonatos.

No entanto, com a composição de times por parte das fábricas, que em paralelo passaram a
disputar os conhecidos "contras"[1], ou jogar as "peladas",[2] a população de baixa renda
passou a ter acesso à pratica do futebol. Mesmo assim, os jogos de federações - principalmente
divisões principais - eram restritos aos brancos da elite brasileira.

Somente na década de 20 alguns times das primeiras divisões regionais passaram a aceitar
negros e mulatos em seus plantéis, sendo que mesmo assim alguns eram obrigados a utilizar
uma antiga estratégia em campos de futebol da época: maquiar-se para não mostrar sua tez
escura durante os jogos, fato esse que apelidou alguns times de cunho mais elitista, que
passaram a ser chamados de "pó-de-arroz".[3]

Sobre este processo de inserção do negro no futebol, descreve Mario Filho, (1964):

         "É verdade que se reconhecia que o mulato e o preto jogavam tanto quanto o branco.
Havia grandes jogadores de cor, mais, muito mais do que antes. Era só ir a uma pelada, ver um
jogo de clube pequeno. E um preto podia jogar no escrete brasileiro, como Gradim tinha jogado
no escrete uruguaio. O Tatu, campeão sul-americano em 22, não era branco. Bem escuro, o
cabelo grosso, anelado.

         Mas os clubes finos nem pensavam neles. Pelo menos o Fluminense, o Flamengo, o
Botafogo. Se o América pensou foi porque estava perdendo a paciência, os anos se passando,
17, 18, 19, 20, ele nada de ser campeão outra vez. E quando acaba foi campeão em 22, como
em 16, como em 13, só com brancos.

         O mulato e o preto era, assim, aos olhos dos clubes finos, uma espécie de arma proibida.
Não um revolver, uma navalha. Se nenhum grande clube puxasse a navalha, os outros podiam
continuar lutando de florete.

         Um clube de segunda divisão, porém, subiu para a primeira divisão. Chamava-se Clube de
Regatas Vasco da Gama, e trouxe com ele, mulatos e pretos. Nelson Conceição, que tinha saído
do Engenho de Dentro, mulato; Ceci, da Vila Isabel, quase preto; Nicolino, do Andaraí, preto. Os
outros, brancos, alguns mal sabendo assinar o nome. O Vasco, clube da colônia, seguia a boa
tradição portuguesa da mistura".

Este processo de inserção do negro e do mulato resultou em uma profunda mudança na maneira
de se jogar o futebol no Brasil. De acordo com o sociólogo Gilberto Freyre, citado por Franzini,
2001, "Tal ascensão do mulato no meio originalmente elitista e europeizado do nosso futebol
implicava uma mudança significativa na forma de praticá-lo aqui nos trópicos: o seu
abrasileiramento".

Com a inserção do negro no futebol institucionalizado iniciou-se de fato o processo de
desenvolvimento do futebol brasileiro. Na verdade ele já havia se iniciado muito antes, mas a
partir do momento em que este estilo brasileiro de se jogar bola passou a ser utilizado nos
campeonatos oficiais, a mudança se disseminou e se sedimentou na nossa cultura.

O jeito de jogar futebol aqui é, como em qualquer outra atividade, permeada pela cultura
brasileira, pela maneira de ser do brasileiro. Segundo Freyre, citado por Franzini, 2001: "os
nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, o alguma coisa de dança e de
capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, (...), tudo isso parece exprimir de
modo interessantíssimo para psicólogos e sociólogos o mulatismo flamboyant e, ao mesmo
tempo, malandro que está em tudo que é afirmação verdadeira do Brasil".

O futebol, que na Europa era praticado tendo como principal valor o seu caráter bélico, isto é,
vivendo o contato com o mundo primitivo que o futebol permite de modo violento, como em
muitos países continua sendo, aqui no Brasil passou a ser praticado com mais plasticidade
artística, onde o contato entre irracionalidade dos pés com a razão da estratégia e dos valores
morais foi vivido de modo mais sensual, mais emocional, mais expressivo e menos geométrico,
mais solto, mais gingado, certamente por conta da nossa influência negra, aliada a nossa cultura
latina.

Segundo Byington, 2000: "as nações latino-americanas, mais distantes dessa cultura acadêmica
patriarcal dissociada, se mostram, nesse particular, mais sábias que os intelectuais devido ao
forte componente sensual ibérico misturado com aquele das culturas índias e negras. Isso lhes
permite usufruir plenamente da expressão integradora do corpo no futebol e nas danças
populares cheias de sensualidade".

A partir destas mudanças o futebol iniciou seu processo de massificação, exatamente porque nos
jogos podia se observar a presença de jogadores pobres, maioria absoluta da população,
fazendo com que os jogos tivessem um apelo identificatório muito mais forte do que antes. Não
só a massa se identificava com o seu "igual" participando do jogo, como também o idolatrava
pelo fato dele, por jogar nos grandes times da elite, ser uma pessoa que ascendeu de nível
social, que mudou de status e que por isso representava os anseios de toda população por uma
vida melhor, cheia de vitórias, conquistas e, principalmente, respeito.

Esta idolatria em relação ao jogador facilitou a massificação do jogo no Brasil, fazendo com que
sua influencia fosse cada vez mais se intensificando no seio de nossa cultura, de modo que seu
caráter mítico se enfronhou como um veículo de identificação coletiva, como um símbolo da
Brasilidade e suas características, como a ginga, a alegria, a arte, a música, fazendo com que
através do futebol a população brasileira pudesse se ver, se entender, se "ler", princípios estes
que determinam o futebol como um ritual mítico brasileiro, como um drama social

3.2. O jogador

O futebol no Brasil, apesar do seu caráter massificador, até mesmo alienador, possui na sua
forma de expressão características que nos fazem novamente voltar a atenção para a
importância do jogador neste contexto, pois que no Brasil o futebol, mesmo sendo uma
modalidade coletiva, enaltece pela sua representação simbólica a figura individualizada do
jogador, mais até do que a equipe ou o clube. O jogador de futebol é, no Brasil, o centro
simbólico e identificatório do futebol. De acordo com DaMatta, 1994: "o futebol é, na sociedade
brasileira, uma fonte de individualização e possibilidade de expressão individual muito mais do
que um instrumento de coletivização ao nível pessoal ou das massas".

Por conta de sua inserção na nossa história e sociedade, a figura do jogador, elemento central do
jogo, adquiriu um caráter superior, sendo não só o jogador aquele que realiza de fato a ligação
do homem-espectador com o espetáculo, uma vez que a identificação se dá entre os homens,
como no Brasil ele é visto, vivido e entendido como um caminho de expressão individual e, tendo
em vista a nossa realidade social, um exemplo de individuo que, contra todas as barreiras
impostas pelo sistema, ascendeu socialmente.

Segundo Freyre, citado por Franzini, 2001: "Enquanto o futebol europeu é uma expressão
apolínea de método científico e de esporte socialista - em que a ação pessoa resulta mecanizada
e subordinada à do todo - o brasileiro é uma forma de dança, em que a pessoa se destaca e
brilha".

O futebol é uma modalidade extremamente democrática, onde todos os tipos de pessoa podem
participar, não havendo restrições quanto a constituição física, força ou resistência, o futebol se
mostrou no Brasil um meio de individualização do povo, sem pré-requisitos quanto ao biótipo,
raça ou classe social, sendo acessível à todos sem exceção.

Uma vez que os jogadores são os protagonistas de um grande espetáculo ritual, e sendo eles
provenientes de diversas etnias e origens, apresentando as mais variadas características físicas,
em nosso país o jogador de futebol se tornou artífice de identificação do homem, tanto com sua
natureza coletiva como com a sua individualidade mais particular. O contato que o futebol
permite ao homem ter com elementos presentes no seu inconsciente coletivo, com os símbolos
de sua vida, expressos pelo jogo, no Brasil assumiu uma maior magnitude, na medida em que
não só a identificação da população é maior em relação aos jogadores, como também a forma
com a qual ele é praticado aqui, muito mais dionisíaco, emocional e sensual, favorece um
contato mais profundo com as emoções, com o nosso self, com nossa unidade. Não existindo
tantas barreiras racionalizantes, a experiência se torna direta, total.

Desse modo, o jogador brasileiro é aquele que, adquirindo domínio sobre sua habilidade, seu
talento, aprendendo a controlar suas emoções em favor de expressá-las com a bola nos pés. Na
maioria das vezes, enfrentou as dificuldades de sua classe social e "subiu" vida, ascendendo de
status social, transmitindo valores éticos e morais que, sob o seu exemplo, são seguidos pelo
povo, trazendo alegria, luz, trazendo esperança para toda uma população que, a partir de sua
individualização, se sente tocada e assim levada a exercitar os mesmos valores em busca de sua
própria individualidade. Sob o exemplo de um jogador, o povo se mobiliza em busca de suas
particularidades, mesmo que a primeira vista ele se perca na massa da torcida. O jogador de
futebol é o homem que pelo uso de seu talento natural realizou proezas, conquistou vitórias, e
que depois voltou ao mundo "mortal" para dividir sua sabedoria.

Sob este prisma, comprovado pelo apelo que este jogo possui no Brasil e pela repercussão social
que ele provoca, pode-se afirmar que o jogador de futebol brasileiro é o herói, o verdadeiro herói
do Brasil.

4. O herói boleiro

Dentro de toda a simbologia já apresentada acerca das expressões míticas do futebol, o
arquétipo do herói é, sem dúvida no Brasil, o seu elemento mais fundamental, pois que todas as
identificações que o futebol brasileiro oferece ao seu povo se dão através do jogador de futebol
que, vivendo e manifestando todo o imaginário relativo ao arquétipo heróico, potencializa e abre
o acesso a todas as outras expressões do inconsciente coletivo presente no jogo.

Tanto nos aspectos relativos à vida de um atleta, como no seu caráter de figura pública, o
jogador de futebol representa no imaginário popular aquele que superou os seus limites e os
limites de seu grupo, sejam eles físicos, técnicos ou emocionais, sendo por isso respeitado e
reverenciado.

Segundo Campbell, 1999: "o herói, por conseguinte, é o homem ou a mulher que conseguiu
vencer suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas,
humanas".

Isto significa que a simbologia se trata de grandes feitos, de vitórias e conquistas gloriosas,
embora o que existe de mais importante no entendimento da figura do herói é o seu caráter
humano. As conquistas dos heróis míticos representam as que todos devemos almejar para nos
tornarmos seres humanos conscientes, plenos pela energia inconsciente, inteiros em nosso self.
O arquétipo do herói representa a tenacidade e a coragem diante da vida, não somente diante
de dragões, cérberos ou a zaga da seleção alemã[4], mas sim diante de nossos medos, de
nossos conflitos internos, de nossos conteúdos reprimidos, que procuram, através dos símbolos,
se fazerem presentes no nível consciente e assim nos darmos conta de que nosso processo de
individuação, de nos tornarmos indivisíveis, unos conosco e com o universo, depende da mesma
coragem demonstrada nas sagas míticas. O mito do herói, seja lá qual ele for, fala das etapas
pelas quais passamos em nossas vidas rumo a consciência plena de nós mesmos.

Sobre a simbologia relativa ao processo de individuação, diz JUNG, (2000):

         "O herói inclui a natureza humana em sua sobrenaturalidade, representando dessa forma
uma síntese do inconsciente ('divino', isto é, ainda não humanizado) e da consciência humana.
Significa conseqüentemente uma antecipação potencial de uma individuação que se aproxima da
totalidade".

Da mesma forma, a respeito desta relação entre o mítico, o simbólico, o extraordinário, e a
figura humana, afirma JUNG, (1999):

         "A figura religiosa não pode ser apenas um homem; ela deve representar aquilo que
realmente é, a totalidade daqueles protótipos que sempre e em todos os tempos exprimem
o 'extraordinariamente eficiente'. Sob a forma humana visível não se procura o homem, mas o
super-homem, o herói ou Deus, justamente o ser semelhante ao homem, que exprime aquelas
idéias, formas e forças que comovem e moldam a vida humana".

Existem muitos mitos a respeito do herói. Alguns mais e outros menos similares ao
representados pelo jogador de futebol brasileiro. No entanto, em todos eles podemos observar
uma característica comum, um elemento universal que se encontra presente em todos os mitos
heróicos, uma célula imutável e indivisível em torno da qual todos os mitos sobre o herói foram
expressos. A esta estrutura primaria dá-se o nome de monomito.

4.1.     O monomito heróico.

Com relação aos mitos e à sua relação com o monomito, Campbell, 1999 afirma "que é sempre
com mesma história - que muda de forma e não obstante é prodigiosamente constante - que
nos deparamos, aliada a uma desafiadora e persistente sugestão de que resta muito mais por
ser experimentado do que será possível saber ou contar".

Partida - Iniciação - Retorno: este é o monomito da saga heróica. Todo herói teve que se
desligar de sua família, de seu grupo ou região para enfrentar desafios e viver uma aventura,
culminando em sua iniciação, dando-lhe assim os poderes necessários para cumprir sua tarefa
que, uma vez realizada, leva-o a retornar, trazendo boas novas, ajudando seu povo ou sendo
apenas um ser a que todos respeitam pela coragem e pelo poderes de superação. Todas as
histórias sobre heróis apresentam esta estrutura temporal. Cada uma enfatiza uma das etapas,
porém em todas o herói desde o nascimento já possui características que o diferenciam, como
um talento extraordinário, ou uma força descomunal, fazendo com que, mesmo sem que
perceba, ele se veja percorrendo um caminho que o afasta de seu grupo, para poder ser testado
em provas que irão avaliar o seu valor, sendo que após as provas lhe é dado o direito de
retornar.

Toda jornada é composta por provações, que acarretam em revelações, e que levam a uma
realização. Desta forma, também, é a realidade do desenvolvimento de um jogador de futebol
no Brasil.

Muito cedo, às vezes já no início de sua adolescência, o futuro jogador, que em seu grupo já era
reconhecido pelo seu destacado talento, afasta-se de sua família e de seu grupo para treinar e
jogar nas categorias de base de algum clube. Fica hospedado no próprio clube, sem possuir a
liberdade que outros da sua idade possuem. A rotina de treinos é intensa, árdua, e o futuro
sempre incerto. Submete-se a uma rotina de trabalho duro, de provações e avaliações
constantes. Como em todos os mitos, é uma figura patriarcal, que possui mais conhecimentos e
mais experiência, que lhe dá instrução, se faz presente e o auxilia em seu desenvolvimento.
Seja o treinador, o preparador físico ou por vezes até mesmo o roupeiro do time, o pequeno
jogador recebe as orientações de um ser mais "sábio" no decorrer de sua aventura.

Sua iniciação se dá ao atingir o nível "principal", o status de jogador profissional. Então, ele deve
enfrentar os desafios com coragem e disciplina, uma vez que, além de bem treinado e
doutrinado, ele é dotado de qualidades especiais, que lhe dão condições de encarar as
competições. Busca sempre a vitória, para que sua carreira seja promissora. Enfrenta críticas,
adversários violentos, torcidas descontentes, porém deve manter a cabeça sempre erguida, pois
que sua chance de realização depende somente do seu trabalho e da sua dedicação.

Aprende muito no caminho, sobre si mesmo e sobre o caminho em si. Esta é a revelação, a de
que mesmo perdendo ou vencendo, o importante é continuar crescendo e tentando, sem nunca
esmorecer. Este é um valor fundamental para o herói e para o jogador de futebol.

A respeito deste aspecto, diz Byington, 2000:

 "É o ensino simbólico, racional e emocional que amadurece a personalidade harmonicamente e
por igual e que faz com que um jogador de futebol, mesmo sem ter nível universitário, seja
capaz de confrontar um adversário, expor em público toda a sua capacidade de luta, habilidade e
competência. Vencedor ou derrotado, ele volta a entrar em campo no próximo jogo com a
mesma disposição para enfrentar tudo de novo".

Ao final do caminho, sai do campo e volta à sociedade. Muitas vezes, respeitando as etapas de
sua jornada heróica, procura contribuir para com seu grupo repassando algo daquilo que
conquistou quando de sua vida de atleta. Enquanto alguns montam escolas de futebol com seu
nome para auxiliar no desenvolvimento de novos jogadores, outros constroem fundações que
carregam sua marca para oferecer à comunidade as condições que ele não teve para se
desenvolver, não só como jogador, mas como ser humano. Muitos se tornam cronistas
esportivos, transmitindo ao público as opiniões e comentários baseados em sua experiência,
devolvendo aos espectadores a visão que adquiriu quando era ele que entrava em campo.
Outros seguem a carreira de treinadores, permanecendo no campo e assumindo o papel daquele
que instrui, que orienta e lidera um time de futebol, tornando-se um dos "sábios", e assim
completando o ciclo da vida, da jornada, da aventura.

Muitos, porém, acabam por não completar este ciclo, pois que não adentram de fato pelo
emaranhado simbólico de auto realização que caracteriza a jornada, Apesar da estória de todos
ser quase idêntica, contando as etapas presentes no monomito heróico, existem aspectos
fundamentais para que o herói se constitua enquanto tal.

Em primeiro lugar é preciso se realizar. Segundo Campbell, 2001: "Não existe proeza heróica
sem um ato supremo de realização". Caso o jogador não se realize pessoalmente, não
necessariamente como jogador vitorioso, mas sim como pessoa, como homem, como ser
humano, ele não completará o ciclo. É preciso aprender com a saga, vivê-la intensa e
profundamente, não bastando apenas percorrer as etapas de modo mecânico e inconsciente.
Aquele que se desenvolveu, que aprendeu, que se realizou, que se tornou sábio, conquista uma
proeza heróica.

Para isso, é preciso ser valoroso, é necessário ter enfrentado a aventura e a iniciação com
integridade e humildade. Novamente Campbell afirma que "as exigências básicas para uma
carreira heróica são as virtudes cavalheirescas da lealdade, temperança e da coragem". O mito
clama por esta simbologia ética e moral, sem a qual não existe saga heróica, não existe valor
esportivo.

Também, é preciso defender algo, é preciso se sacrificar, mesmo não sendo por um ideal, mas
por algo maior que si mesmo. Não existem heróis egoístas, nos sentido de que um só o é se se
doar a algo, se submeter o seu ego em prol da jornada em direção ao self, se defender o
coletivo, o humano, em detrimento de seus anseios egóicos com coragem, fé e humildade.

4.1.           Submissão auto-conquistada

Pode parecer uma visão extremamente romântica esta do jogador brasileiro servindo a uma
causa maior, coletiva, especialmente quando se afirma que o futebol de nosso país é aquele que
mais se individualiza, aquele que está mais preocupado com a figura individual. Porém, é
exatamente por isto que ele se submete a algo maior, pois que a sua característica
individualização, presente no futebol jogado por aqui, não significa apenas o preenchimento de
desejos superficiais, vaidade ou prepotência, mas sim a submissão disto, o sacrifício disto em
busca de glorias maiores, de representar o seu país ou de honrar o clube e a torcida para o qual
joga, coisas que somente ocorrem se sua determinação pelo sucesso for tremendamente maior
que seus desejos infantis de gloria sem mérito e sucesso sem trabalho.

O sacrifício implícito na mitologia acerca do herói, que é possível observar ao analisarmos o
jogador de futebol, provém do fato de que, em função de sua vida repleta de provas e
confrontos, o futebolista deve renunciar ao desejo de poder para que possa conquistá-lo de fato
em sua plenitude. É fundamental que o jogador se entregue à vida, entre em contato e elabore
as emoções que a natureza de sua atividade mobiliza para que ele seja bem sucedido, para que
ele se imortalize. É importante que ele mergulhe na terra, que navegue pelo seu inconsciente
para que, ao retornar, sua saga, suas proezas sejam realmente heróicas.

A respeito disto afirma Jung, (1999):

"No sacrifício o consciente renuncia à posse a ao poder, a favor do inconsciente. Isto torna
possível uma união de opostos, cuja conseqüência consiste numa liberação de energia. O ato do
sacrifício tem ao mesmo tempo o sentido de uma fecundação da mãe; a serpente ctônica bebe o
sangue, que é a alma do herói. Com isto a vida se conserva imortal pois, como o sol, também o
herói se recria através de auto-imolação e sua penetração na mãe".

Sendo neste caso a mãe entendida como o inconsciente, o herói deve mergulhar em seu
inconsciente, pois que este é seu sacrifício máximo,para realizar-se, para beber da sabedoria da
vida e completar a sua jornada por ela.

No futebol nada surge de graça. Atletas lendários como Pelé, Zico, Raí, Tostão, Cafu, Telê, Didi,
Pepe encaravam os treinamentos com dedicação incomum, passavam por vezes algumas horas
além dos horários estabelecidos aprimorando sua técnica e os fundamentos do jogo. Encaravam
a derrota com humildade e se preparavam para se superar. Aprendiam com as derrotas,
controlavam suas emoções, pois entendiam que o adestramento do espírito é, como nas artes
marciais orientais e nos fundamentos olímpicos da Grécia antiga, o princípio básico da excelência.

Joseph Campbell pregava que "o herói é o homem da submissão auto-conquistada", querendo
com isso dizer que o herói é aquele que submete o seu ego inferior, seus desejos primários,
infantis, de vingança contra uma sociedade que o desacreditava, ou seus desejos de afirmação
barata de uma vaidade efêmera, em busca de algo maior que si, seja isso um ideal coletivo ou
mesmo a realização do Self, a totalidade do ser.

"O herói é aquele que participa corajosa e decentemente da vida, no rumo da natureza e não em
função do rancor, da frustração e da vingança pessoais" (Campbell, 2001)

O herói-jogador não se submete a ninguém em particular, e sim à vida. Não se humilha diante
de ninguém, pois possui a dignidade daqueles que conquistam a humildade frente à jornada da
vida. Suas vitórias e glorias são alcançadas pela coragem de enfrentar os opostos, os medos, os
conflitos presentes na vida. A sua sabedoria provém desta coragem. E o seu retorno,
fundamental no caminho de cada herói, é a representação de sua individuação, pois que voltar
para casa é, na verdade, encontrar morada em seu ser, é se sentir em casa dentro da totalidade
do si mesmo.

5. Considerações finais

O jogador de futebol no Brasil é um herói que, em dias anti-heróicos e pouco nobres como os de
hoje, nos oferece ainda a chance de entrarmos em contato com nossa jornada, de nos
depararmos com uma mitologia, um simbolismo que nos convida à expressão e elaboração de
nossas emoções e nos dá parâmetros para forjarmos nossos papéis nos grupos que ocupamos.

Por mais atuais, mundanos e concretos que sejam os exemplos de jogadores e fatos
relacionados ao futebol, é fundamental entender que, apesar do dinheiro, da fama, das
estatísticas e da glória, o serviço mais importante prestado por nossos queridos jogadores se dá
no nível simbólico, na sua capacidade de representar e nos permitir identificar, sem que ele
necessariamente o saiba, o mito.

Segundo Campbell (1999): "Mesmo quando a lenda se refere a uma personagem histórica real,
as realidades da vitória são representadas, não em figurações da vida real, mas em figurações
oníricas".

E é este caráter de sonho que causa comoção, que nos coloca em sintonia com nossas camadas
mais profundas e reprimidas, e que torna possível a compreensão de que, no aqui e agora, na
esfera do tempo, da dimensão do bem e do mal, eles podem fazer os gols, mas no fundo
somos nós todos seres humanos, e heróis.

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[1] Jogos não organizados pelas federações. Os contras não fazem parte de campeonatos de
federação, mas de ligas regionais de pouca repercussão, pouco importantes, sendo seu caráter
menos institucionalizado e formal.

[2] "Pelada", campo pelado, sem mato ou grama. As partidas de futebol de lazer foram
apelidadas a partir das características dos campos onde eram jogadas.

[3]   Informação colhida no site oficial do Fluminense Football Club: www.fluminense.com.br

[4] Todo herói deve enfrentar em sua jornada provas que visam testar o seu valor, não
importando se tais provas são combates com seres míticos, no caso das mitologias a seu
respeito, ou exemplos reais de combates, que re-significam tais elementos simbólicos da jornada
heróica.